PASSAGEIRA



Todd Hido - Untitled 3905 

Teus pulsos tem sabor de mel. Um gosto doce. Doce são teus olhos e tuas palavras. Tua voz. Suave como o vinho que tomamos ontem. Mas você. Você não existe mais. Sumiu. Não diz mais nada. Só o silêncio existe agora. O silêncio.
Agora vivemos nossa vida fazendo de conta, como se entre nós nada tivesse acontecido. Você acordou, vestiu sua roupa e foi embora. Cruzamos pelos corredores da universidade e nossos olhares não se encontram mais. Você havia me dito que tinha sonhado comigo. Mas agora não sonha. Nem pensa. Apenas foge. Vira o rosto e o olhar. Olha para o vazio. Nada existe mais em seu coração.
Mas o que encontramos um no outro senão esperanças vazias. Eram só palavras. Eram só esperanças e frustrações. Por um momento dançamos a mesma música e foi bom enquanto durou. Mas a música para você agora é outra. Você ainda quer voltar para a pista e dançar e beber todas. Viver a vida você diz. Como se viver a vida se resumisse a entregar-se as paixões e aos desejos.
Viver a vida.

Alma solitária que vaga sem sentido, minha mente nunca soube bem o que queria. Minha mente não era eu, ou eu não era a minha mente. Briguei muito com meus pensamentos. Fugi tentando me encontrar. Só quando parei, encontrei. Serenidade.
Viajei quilometros só para chegar na sua cidade. E quando cheguei, descobri que você já não estava lá. Você sempre quis morar do outro lado do oceâneo. Eu não poderia fazer nada. Engraçado. Eramos tão próximos. Fizemos juras e mais juras de amor. Mas a vida, a vida. Às vezes a vida separa de um jeito que não tem como explicar. Vejo sua foto abraçada com sua nova namorada e parece que nem te conheço mais. Ontem ainda era eu. Mês passado era outro. 


Todd Hido - A Road Divided

Você veio chorando até mim. Eu te abracei e disse que ficaria tudo bem. Aquele maldito! Ele ainda irá pagar pelo mal que te fez. Ele também está na Europa agora. Nas fotos ele está sempre sorrindo. Parece bem sucedido. O que ninguém viu foi os golpes que ele te deu, naquela noite, naquele quarto escuro. Eu vi seus hematomas, enxuguei suas lágrimas, ouvi seu choro. Mas no fim eu não podia fazer nada.
A vida é como o vento que sopra e está sempre correndo. Podemos senti-lo, mas não guardá-lo. O teu amor é como o vento, que só existe quando está em movimento. Jamais poderia acompanhar esse ritmo. Não. Eu não consigo. Eu não sou desses seres moderninhos e descolados. Não. Eu estou ficando velho e cansado. Minhas costas doem e minha paciência já está acabando. Não tenho mais saco. Vai tomá no cú! 
[14/01/2020 - Eu não sou um desses caras moderninhos e descolados. Desconstruídos eles dizem. Não. Eu estou ficando velho e cansado. Minhas costas doem e minha paciência já está acabando. Eu tô ficando velho e careca cara. Eu já não tenho mais saco. Vai tomá no cú caralho!
Você não vai voltar. Eu sei. Você disse que iria. Mas não vai. Quando voltar, já não será mais a mesma. Eu vi nos teus olhos. Não é mais a mesma. Tuas palavras me dizem coisas incompreensíveis. Teus conceitos não são os mesmos que os meus. Você foi por um caminho muito distante do meu. Exploramos mundos diferentes e agora já não existe diálogo possível entre nós. O que fica é a lembrança daqueles dias de maio, quando andávamos juntos lado a lado, quando eu segurei sua mão, quando eu te beijei pela primeira e última vez. Não esperava que aquela despedida fosse a última. Mas segue a vida. Assim a vida segue. Sem sentido. 

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